Ao longo de 18 anos, a Orquestra Geração cresceu com muitas mãos, muitas vozes e muitas histórias. Nesta secção, damos lugar a pessoas que marcaram o caminho do projeto e que, de diferentes formas, ajudaram a construir a sua identidade artística, pedagógica e social.
Mais do que entrevistas, estas conversas são memória viva: olhares sobre o passado, reflexões sobre o presente e pistas para o futuro de uma orquestra que continua a transformar vidas através da música.
Entrevista a António Wagner Diniz
António Wagner Diniz é natural de Lisboa. Licenciado em Economia (ISE) e Música (Basileia e Évora), teve uma carreira de cantor lírico durante 30 anos (1976-2006), apresentando-se em vários países da Europa e da Ásia. Ao longo da sua carreira, colaborou também com o Teatro da Cornucópia e com cineastas conhecidos, como Manoel de Oliveira e João Botelho. Foi Diretor do Conservatório Nacional durante nove anos e fundou a Orquestra Geração, projeto que lhe valeu o Prémio Nacional de Professores - Inovação em 2010. Atualmente, dedica-se à coordenação do projeto Ópera nas Escolas.
Qual a sua visão ao criar a Orquestra Geração?
Movido pela minha experiência de animador musical desde 1975 no programa da Juventude Musical Portuguesa dirigido por Helena Lamas Pimentel, em que íamos às escolas fazer animações musicais para as turmas, e como membro do Comité Internacional de Animadores Musicais da Federação Internacional das Juventudes Musicais (sediado em Bruxelas), tomei consciência de que a música é mais que desfrute estético e cultural.
Essa minha experiência em escolas consideradas de periferia mostrou-me que a música podia ocupar uma parte significativa na formação da personalidade das crianças.
Quando estive em Basileia, como bolseiro da Gulbenkian, colegas meus venezuelanos levaram me a ouvir a orquestra Teresa Carreño do El Sistema e explicaram me as bases dessa metodologia e as centenas de centros de orquestra que existiam na Venezuela.
Já como diretor do Conservatório Nacional fui desafiado pelo Jorge Miranda (diretor do Departamento de Cultura, Juventude e Desporto da Câmara da Amadora, em 2007) a experimentar aplicar esse método num programa que ele estava a iniciar no bairro da Boba, na Amadora, especificamente na Escola Miguel Torga. Sabia que havia músicos do El Sistema a tocar nas orquestras portuguesa e foi através deles que iniciamos o projeto e a colaboração com o El Sistema da Venezuela. Foram cerca de 15 crianças que começaram, em outubro de 2007, e vejam quantas são agora.
Como pode resumir o processo de desenvolvimento da Orquestra Geração?
O programa contou desde o início com o apoio da Fundação Gulbenkian. Logo no primeiro ano aumentou os seus alunos para cerca de 100, com a junção de um projeto de violinos existente na escola de Vialonga, que estava pouco ativo. Seguiu se o interesse das instituições da Área Metropolitana de Lisboa, que mobilizou toda uma série de câmaras no sentido de adoptarem este tipo de orquestras no seus territórios e do Ministério da Educação, que foi fundamental para garantir essa expansão assegurando a contratação de professores. Entraram depois as fundações EDP e Portugal Telecom, a apoiar nomeadamente na ida para a zona das barragens no norte de Portugal (Amarante, Mirandela e Murça). Infelizmente, essa expansão não resultou, por variadas razões.
Qual a sua visão para o futuro?
O que gostaria de ver em termos de desenvolvimento da OG?
Espero que o projeto se vá renovando e faça mais tentativas para se expandir, pois os resultados para as crianças têm sido extraordinários.